Blockchain e Web 3.0. Como vai ser a internet do futuro?

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Se quando nasceu, a internet era “estática”, naquilo a que chamamos a sua versão 1.0. Hoje em dia ela é “dinâmica”. É a versão 2.0. Mas será que algum dia vamos ver a sua próxima versão?

Se esse dia chegar, a internet do futuro, ou web 3.0 se quisermos, será “descentralizada”.

Por esta altura, já estamos todos mais ou menos convencidos que a tecnologia blockchain vai muito além das criptomoedas.

Se não, uma breve leitura pelos meus artigos de Fevereiro e Março, irá com certeza ajudar.

Blockchain e as suas soluções descentralizadas, irão transformar várias industrias. A internet, hoje altamente centralizada, será provavelmente uma delas.

Mas comecemos pelo início.

Quando surgiu, a internet era apenas um conjunto de textos, imagens, links, código e pouco mais. Todas as webpages pareciam iguais. E tudo era estático. Era aquilo a que chamamos de web 1.0.

Mas a internet, naturalmente, evoluiu. Hoje é dinâmica e interactiva. É possível o registo em diferentes websites e a interação com bases de dados por trás dos interfaces do utilizador.

A internet que conhecemos hoje, tem lógica. É inteligente, regista o comportamento dos usuários e aprende. Permite streaming de video, comunicação em tempo real, entre várias outras coisas extraordinárias. É a web 2.0.

No entanto, a evolução da internet que possibilitou significativos avanços de forma transversal a quase todos os sectores da sociedade, veio também com consequências.

Hoje, quando acedemos à internet, estamos na verdade a aceder a diferentes servidores, onde cada um detém a sua própria base de dados, com a qual interagimos.

Pensemos Facebook, Google, Yahoo, Twitter e outros. Estas entidades controlam naturalmente as respetivas base de dados. A internet de hoje tem assim uma infraestrutura onde um grupo muito restrito de corporações detém uma quantidade inimaginável da nossa privacidade.

É interessante ver como Steve Jobs falava já sobre o tema em 2010, há quase oito anos, quando ninguém se preocupava com o assunto ainda.

Para ver o video basta clicar na imagem.

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(não encontrei uma versão com legendas em português – se alguém encontrar, por favor envie.)

Ultimamente, esta questão parece ter ficado finalmente na ordem do dia.

Ainda há dois dias, Elizabeth Denham – Comissária para a Informação do Reino Unido – anunciou o encerramento da investigação que decorria desde Agosto de 2016 sobre a possível partilha ilegal de dados entre Whatsapp e Facebook.

Apesar de não ter sido aplicada nenhuma sanção monetária a qualquer das partes, por não ter sido possível provar a partilha inapropriada de dados pessoais de cidadãos do Reino Unido, foi assinado um documento onde Whatsapp se compromete publicamente a não partilhar dados pessoais com o Facebook até que ambos os serviços o possam fazer de acordo com as novas regras de proteção de dados da União Europeia – GDPR (General Data Protection Regulation).

A nova Regulação Geral de Proteção de Dados (GDPR) da Comissão Europeia entrará em vigor a 25 de Maio de 2018 e um dos principais objetivos é dar aos cidadãos europeus maior controle e segurança sobre os seus dados pessoais.

Podem encontrar mais informação nestas duas curtas apresentações retiradas do site da União Europeia: aqui e aqui. É do interesse de todos.

Continuando.

Parece impossível mas é verdade. Nós, usuários, a troco de supostos serviços gratuitos, estamos dispostos a abdicar da nossa privacidade.

Talvez seja da natureza humana. É mais conveniente? Se sim, então fazemos.

E assim, a internet é hoje um lugar onde abdicámos da nossa privacidade a troco de conveniência, gerando enormes monopólios que detêm hoje um poder inestimável na sociedade.

Mas a verdade é que, graças à tecnologia blockchain, esta situação pode vir a alterar-se.

Como?

Existe hoje um grupo, cada vez maior, de pioneiros que tentam construir uma nova web.

O seu caminho não se adivinha fácil. Afinal, estarão a mexer em águas que se querem paradas. Quando grandes corporações, que hoje beneficiam de uma internet centralizada, se começarem a sentir ameaçadas, irão ripostar.

Ou talvez não. E se se juntarem? Parece utópico, certo?

Bom, a verdade é que Mark Zuckerberg, no seu já habitual desafio anual onde se propõe a alcançar um determinado objetivo durante o ano corrente, se comprometeu com algo muito interessante. Vejamos o que disse relativamente ao seu objetivo deste ano:

“Nos anos 90 e 2000, a maioria das pessoas acreditava que a tecnologia seria uma força descentralizadora.

Mas hoje, muitas pessoas perderam fé nessa promessa. Com o surgimento de um pequeno número de grandes empresas de tecnologia – e os governos que usam a tecnologia para auxiliar os cidadãos – muitas pessoas acreditam agora que essa mesma tecnologia apenas centraliza o poder ao invés de descentralizá-lo.

Existem importantes contra-tendências para esta situação – como criptografia e criptomoedas – que absorvem o poder dos sistemas centralizados e o colocam de volta nas mãos das pessoas.

Mas eles correm o risco de serem mais difíceis de controlar. Estou interessado em aprofundar e estudar os aspectos positivos e negativos dessas tecnologias e a melhor maneira de usá-las nos nossos serviços.

Este será um ano sério de auto-aperfeiçoamento e estou ansioso para aprender e trabalhar para juntos resolvermos os nossos problemas.”

Também a Regulação Geral de Proteção de Dados da Comissão Europeia (GDPR) que entrará em vigor em Maio parece ser um passo na direção certa.

Cabe-nos aos demais fazer o resto.

Hoje em dia, a internet é uma situação onde as relações estabelecidas são, como vimos, cliente-servidor. Onde o servidor é detentor de todos os dados e informação.

A ideia de uma web 3.0 é simples. Imaginemos na mesma vários servidores. Facebook, Google, Twitter, e outros novos que surjam. No entanto, estes servidores estão agora conectados a um protocolo blockchain. E todos os dados e informações recolhidos são armazenados no protocolo. Deixam de ser propriedade do servidor.

Se amanhã o servidor fechar ou deixar de existir, pode simplesmente surgir outro e prestar o mesmo serviço. Uma vez que todos os dados e informação se manteriam intactos no protocolo.

As pessoas e empresas passarão a ser detentoras da sua informação pessoal e podem decidir o que fazer com ela. Com quem partilhar e o que partilhar.

Naturalmente, para que tal aconteça, novos modelos de negócio terão que ser pensados. E é isso que os pioneiros da web 3.0 estão hoje a fazer.

O objetivo por trás de uma web descentralizada é devolver o poder às pessoas, rompendo com o poder centralizado dos gigantes da internet.

Mas a verdade é que, apesar de existirem já várias iniciativas, a tecnologia blockchain não está ainda suficientemente avançada para uma web 3.0. A escalabilidade do protocolo blockchain é ainda um entrave.

Olhemos para o principal protocolo que, à data de hoje, está associado a mais iniciativas relacionadas com uma web 3.0: Ethereum.

Atualmente, o protocolo Ethereum permite apenas 7 a 15 transações por segundo. Imaginemos agora a internet, como a conhecemos hoje, onde apenas 7 a 15 transações por segundo são possíveis.

Não imaginamos. Porque simplesmente não existiria. As pessoas teriam que esperar horas, dias ou até semanas cada vez que quisessem efetuar uma transação.

Naturalmente, diferentes soluções têm sido testadas mas ainda nenhuma conseguiu resolver o problema.

A realidade é que, quantos mais nodes se juntam à rede, menos escalável ela se torna. Lembremo-nos que no protocolo Ethereum, todos os nodes têm que executar o código de todos os Smart Contracts do protocolo.

Assim, o crescimento da rede com a entrada de mais nodes diminuirá, em teoria, a velocidade da mesma. Os Smart Contracts precisarão ser validados por um número cada vez maior de intervenientes.

Ao dia de hoje, existe uma solução proposta para fazer face a este problema de performance do protocolo Ethereum, denominada Sharding.

Resumidamente, Sharding propõe partir a rede em pequenos grupos de nodes que validariam diferentes Smart Contracts de forma independente.

Naturalmente, esta solução vem com desafios. Por exemplo, menos nodes significa menos segurança. E se um hacker decidir atacar um destes grupos mais pequenos? As chances de sucesso serão maiores.

Além disso, a implementação desta solução precisa ter em conta outro aspeto importante. Um update ao protocolo terá que ser compatível com a sua versão anterior (backwards compatible).

Existem já demasiados Smart Contracts no protocolo. Uma alteração que torne todos esses contratos inúteis prejudicará gravemente a reputação da Ethereum.

(Para quem quiser saber mais sobre como funciona o protocolo, no meu ultimo artigo escrevi sobre o “Ecossistema Ethereum simplificado: o que são Smart Contracts, DAPP’s e EVM?“)

Em jeito de conclusão, hoje em dia falamos de blockchain 2.0, onde Ethereum, Cardano, NEO e EOS são alguns dos players principais.

Muitos outros vão surgindo. Essencialmente, apresentam soluções semelhantes e problemas iguais.

Talvez precisemos de uma nova geração de blockchains. Talvez Blockchain 3.0 seja pre-requisito de uma web 3.0.

Fiquemos atentos.

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